1º
Aperitivo
Fabio Fernandes
Presidente da agência de publicidade F/Nazca
S&S
No final da tarde de sábado, voltando
da missa a pé, meu pai sugeriu que nós
cinco – ele, mamãe, eu e meus dois
irmãos – parássemos numa
padaria a caminho de casa, no bairro carioca
da Tijuca. “Que tal? Cada um escolhe um
tipo de pão e levamos para lanchar. A
sobremesa é sorvete”, propôs
meu pai, para alegria geral dos filhos. Começaria
aí meu calvário em dois atos,
comédia para quem vê de fora, tragédia
suprema para mim.
Eduardo, o mais velho, então com sete
anos, quis pão doce. O mais novo, Guilherme,
de quatro, também. Ia pedir o mesmo,
mas então eu vi: um pão doce tamanho
família do jeito que eu mais gostava,
com o branquinho do açúcar escorrendo
pelos lados e, por cima, generosas ondas de
creme, aquele delicioso creme amarelo de padaria
que também recheava os sonhos.
— Pai, eu quero este, apontei, salivando.
— Mas é grande demais, Fabio, você
não precisa disso tudo, não vai
agüentar comer tanto.
— Vou sim.
— Não vai, escute o que eu digo.
Você só tem seis anos. Não
vai caber na sua barriga. Olha, faça
como seus irmãos. Tem gente demais passando
fome, não quero que sobre. Leva o menor.
- Não vai sobrar, pai, eu prometo.
Tanto insisti, tanto torrei a paciência
que meu pai cedeu. Fomos para casa, minha mãe
pôs a mesa. Sentamos e começamos
a lanchar. Na quarta mordida no pãozão,
comecei a sentir o peso de meu erro de avaliação.
Na sexta, já estava adiantado no caminho
do exagero. Na oitava, faltando uns 92% para
acabar, saía pão doce pelos olhos.
Para piorar, todos já haviam terminado
os seus e o sorvete começava a ser servido.
— Pai, quero sorvete, arrisquei.
— Nós combinamos que você
ia comer todo o pão. Só depois
disso vai ter sorvete para você.
Entrei em pânico. Naquele ritmo, ia levar
semanas para engolir tudo. Inspirado pelo aperto,
tive uma idéia estupenda. Me achando
o mais esperto dos espertos, saí de fininho.
Dei um giro pela casa e, dois minutos depois,
voltei à mesa para exigir meus direitos.
— Quero meu sorvete.
— Cadê seu pão?, perguntou
meu pai.
— Comi.
— Impossível. Ninguém come
aquilo em um minuto.
— Pois eu comi, agora quero sorvete.
— Só quando terminar. Você
só pode ter escondido. Vá buscar.
— Pai, não tem mais, comi tudo,
não sobrou nada, já disse.
Nem suspeitando de como toda a cena era óbvia
para um adulto, pronunciei essa última
frase com firmeza, convicto e seguro, na expectativa
de dissipar qualquer eventual desconfiança
em relação a artimanhas de minha
parte. Não colou. Meu pai me olhou sério
e disse:
— Fabio, palavra é a coisa mais
importante que uma pessoa pode ter. Se você
me dá sua palavra de que comeu tudo,
vou acreditar em você, não vou
procurar o seu pão. Mas palavra é
uma vez só. Basta uma mentira para perder
a confiança, sem volta. Palavra é
sagrada. Ai de você se eu encontrar aquele
pão.
Eu devia ter dito a verdade, mas preferi o sorvete.
Já na primeira colherada, engolindo sem
gosto, o sentimento de culpa era gigantesco.
Na manhã do dia seguinte, Eduardo, o
irmão mais velho, acordou primeiro, às
seis e meia, como fazia todos os dias. Nós,
os três filhos, dividíamos o mesmo
quarto. Eu vi quando ele levantou da cama e
caminhou em direção à porta
do quarto, onde ficava pregada uma daquelas
sapateiras antigas, com bolsos para colocar
calçados e chinelos. Ia tentar desviar
a atenção dele, mas foi tarde
demais. Ao pegar os sapatos, viu meu pão
doce no meu esconderijo "inexorável",
o creme saindo pelo topo do bolso suspenso.
Como todo irmão mais velho, perfeccionista
e que se acha responsável pelos outros,
ele logo avisou que iria contar tudo ao meu
pai. Em total desespero, tentei todo tipo de
suborno — em troca do silêncio dele
(e de jogarmos o pão na privada), ofereci
todos os meus brinquedos, todas as minhas roupas,
jurei que seria escravo dele até o final
da vida.
Papai estava fazendo a barba no banheiro. Eduardo
desembestou para lá, estendendo em suas
mãos o enorme pão doce já
meio endurecido, enquanto repetia “olha
só o que eu encontrei”. Meu pai
olhou para o pão e mirou para mim, que
estava logo atrás, estático no
batente da porta do banheiro. Ele foi duro.
— Fabio, sua palavra não vale mais
nada para mim.
Eu abaixei a cabeça, desmoralizado. Nem
tive tempo de balbuciar. Lá veio a ordem:
— Volte à sapateira e traga já
um chinelo aqui.
Sem alternativa, eu trouxe. Sem uma sílaba,
ele me colocou de bruços sobre o seu
colo e me deu meia dúzia de chineladas,
que doeram muito mais na alma do que no corpo,
naquele momento e durante os dois dias em que
ainda fiquei de castigo.
Nesse episódio, a moral da história
não se reduziu à obrigação
de manter a palavra e honrar compromisso. Ela
estava fundamentada em outra premissa, como
meu pai insistiria inúmeras vezes em
conversas posteriores:
— Fabio, ninguém tem duas fomes
no mesmo almoço. Você já
sabia disso, filho, mas esqueceu. Por isso,
já que não ouviu minhas recomendações,
teve de aprender com a sua própria experiência.
Mas jamais deixe de lembrar: ninguém
precisa de nada além do necessário
para o sustento.
Quando eu me tornei pai, em casa sempre usei
uma norma: se entrar um brinquedo novo, tem
de sair um velho. Se ganhar roupa nova, a antiga
vai para quem precisa. Hoje sou sócio
de uma agência de publicidade. Não
alcancei nem de longe o grau de desprendimento
de meu pai, mas acredito que faça um
pouquinho a minha parte. A empresa dá
emprego a cerca de 260 pessoas. Suas famílias,
seu bem-estar, o apoio a cada uma dessas pessoas
e o índice de felicidade delas, são
uma das minhas mais caras missões. Crio
campanhas de graça para tantas ONGs e
entidades beneficentes quantas nos procurarem.
Além disso, ajudo no que posso, mas não
digo para quem nem quanto. Meu pai também
me ensinou, conforme a Bíblia, que "o
que faz a sua mão direita, a esquerda
não deve saber".
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